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Taylor Momsen é capa da edição de verão da revista REVOLVER. Confira abaixo a tradução completa da entrevista de Taylor para a revista, onde a cantora fala mais sobre algumas músicas novas, novo álbum e acontecimentos recentes da carreira da banda. Leia:
No último novembro,
Taylor Momsen observou o passado se reorganizar com uma precisão impressionante. Ela estava ensaiando com o Soundgarden (grupo que ajudou a moldar sua identidade musical) preparando-se para cantar “Black Hole Sun” e “Rusty Cage” na cerimônia de introdução deles no Rock & Roll Hall of Fame. Em certo momento, ela perguntou quem faria a apresentação de introdução da banda. “Jim Carrey”, respondeu o baterista Matt Cameron. “Cala a porra da boca”, ela respondeu.
Momsen não via Jim Carrey havia 25 anos, desde o set de "How the Grinch Stole Christmas", o filme que a apresentou ao mundo como Cindy Lou Who quando ela tinha apenas sete anos — um papel que a acompanharia muito antes de ela ter a chance de definir a si mesma.
No começo da adolescência, sua fama continuou crescendo, estrelando como Jenny Humphrey em Gossip Girl enquanto também modelava em campanhas de John Galliano e da linha de moda de Madonna. Era uma versão dela mesma que o mundo rapidamente fixou em sua mente.
A música, porém, sempre esteve presente. Momsen cantou “Where Are You Christmas?” no filme do Grinch e depois ficou obcecada por rock através da coleção de discos do pai.
Conforme foi crescendo, a música parecia mais honesta do que interpretar personagens e, em 2009, ela lançou The Pretty Reckless para seguir esse impulso.
“Eu formei a The Pretty Reckless quando tinha 14 anos”, ela diz, “mas essa jornada começou quando eu tinha dois anos.”
Agora, aos 32 anos, ela está se preparando para lançar o quinto álbum da banda, Dear God, o capítulo mais recente de uma carreira que transformou The Pretty Reckless em uma força dominante do rock moderno. É também um momento de convergência, em que Momsen encara todas as versões de si mesma ao mesmo tempo.
The Pretty Reckless formada pelos membros de longa data Ben Phillips (guitarra), Mark Damon (baixo) e Jamie Perkins (bateria) rapidamente conquistou espaço nas rádios de rock com um som pesado, intencional e agressivo. O álbum de estreia de 2010, "Light Me Up", teve destaque nas paradas da Billboard, com “Make Me Wanna Die” levando a banda ao mainstream.
Desde então, The Pretty Reckless conquistou a admiração dos ídolos de Momsen, de Mick Jagger a Mariah Carey, abriu shows para The Rolling Stones e AC/DC, além de colaborar com Tom Morello e os integrantes do Soundgarden, Kim Thayil e Matt Cameron, em "Death by Rock and Roll", de 2021. Nesse mesmo ano, Momsen também participou com seus vocais em “Use My Voice”, do álbum "The Bitter Truth", da banda Evanescence.
No outono passado, o single principal de "Dear God", “For I Am Death”, alcançou o primeiro lugar na parada Mainstream Rock Airplay da Billboard (o oitavo número 1 da banda no total) tornando-os a primeira banda liderada por uma mulher a atingir esse marco.
A maioria das pessoas interpreta a carreira musical de Momsen como uma ruptura completa, uma separação decisiva entre a pessoa que Momsen entende ser e a estrela mirim cuja carreira começou antes que ela pudesse realmente reivindicá-la como sua. A cerimônia do Rock Hall eliminou essa distância, costurando os fragmentos de sua vida. Naquele momento, Jim Carrey foi o elo de ligação.
Anos antes, o ator concordou em apresentar o Saturday Night Live com a condição de que o Soundgarden fosse o convidado musical. Momsen brinca dizendo que, durante as filmagens de "How the Grinch Stole Christmas", Jim Carrey ouvia a banda enquanto suportava o processo longo e fisicamente exaustivo de se transformar no personagem coberto de próteses e pelos verdes. Em pé no palco, preparando-se para cantar com o Soundgarden, e com Jim Carrey prestes a voltar ao seu círculo novamente, Momsen conseguia enxergar a continuidade de sua história de vida em tempo real. A distância entre Cindy Lou Who e a pessoa que ela se tornou parecia, finalmente, resolvida.
“A vida é uma montanha-russa. Se você for legal, pode andar nela duas vezes”, ("Life's a rollercoaster, if you're nice, you can do it twice,") canta Momsen em “Rollercoaster of Life”, do novo álbum "Dear God". A frase é tanto uma manifestação quanto um resumo do momento que ela vive agora. Momsen está em sua “segunda volta”, revisitando os marcos de seu passado em seus próprios termos: regravando “Where Are You Christmas?” para o EP "Taylor Momsen's Pretty Reckless Christmas" do ano passado (efetivamente fazendo um dueto com sua versão mais jovem, cujos vocais originais abrem a música) e apresentando-a na "Macy's Thanksgiving Day Parade", enquanto também faz referências a Jenny Humphrey nos visuais desta nova era de "Dear God".
Seu retorno mais “Jenny Humphrey” acontece no novo videoclipe de “When I Wake Up”, que reúne seus antigos colegas de elenco de Gossip Girl, Jessica Szohr e Connor Paolo. Co-dirigido por Momsen, o vídeo é filmado sem brilho excessivo nem filtros, revisitando um período de sua vida que ela descreveu como fora de controle: buscando distrações e entrando em colapso.
“Cheguei a um ponto em que estou aceitando todos os aspectos da vida que vivi”, ela diz. “Houve um tempo em que eu estava carregando muito... na falta de palavra melhor, ressentimento. Agora estou trazendo tudo isso para o meu futuro.”
Essa mudança permitiu que ela fosse sua “versão mais genuína, o que é algo muito libertador, em vez de ficar constantemente jogando as coisas por cima do ombro.”
Esse sentimento de retorno molda o novo disco. Dear God reúne toda a experiência de Momsen, pessoal e musical, e a faz passar novamente pelos sons que inicialmente a definiram. As músicas transitam de riffs carregados de blues para uma psicodelia expansiva, traçando tanto uma linhagem musical quanto uma autobiografia.
Momsen reflete sobre tudo isso de um quarto de hotel entre datas da turnê com AC/DC. Ela mantém sua orientação através da repetição. “Onde eu estou mesmo?”, pergunta, antes de responder: “Buenos Aires, Buenos Aires.” Ela puxa uma tragada de um vape verde fluorescente, soltando nuvens de fumaça entre as perguntas. Do lado de fora, fãs se reuniram em grande número, formando um cerco ao redor do hotel.
“É meio complicado sair”, ela diz.
Momsen, que neste ponto parece bastante musculosa, tem aproveitado bastante a academia do hotel, se desafiando a levantar mais do que o próprio peso corporal. “É meu vício saudável”, afirma.
De certa forma ela mudou, mas Momsen ainda usa o mesmo “uniforme” que escolheu quando era adolescente: sombra escura espalhada amplamente pelas pálpebras, uma jaqueta de couro, colares sobrepostos no pescoço, com uma cruz repousando entre eles. Ela mantém esse visual porque ele ainda parece ser quem ela é.
Esse senso de identidade vem, em parte, de um esforço contínuo para recuperar as próprias memórias. A vida de Taylor Momsen há muito tempo é refratada por telas e pelas versões dos acontecimentos contadas por outras pessoas.
“Quando penso na época do Grinch especialmente, é meio estranho”, ela diz. “Tipo, quanto eu realmente lembro? E quanto eu lembro porque me contaram a história, porque eu vi aquilo em filme? Minha vida inteira foi gravada.”
Alguns Natais atrás, ela voltou para casa e tentou reconstruir sua própria versão dos acontecimentos, começando do início de tudo. Vasculhou os armários dos pais, tirou caixas de fitas VHS, colocou-as em uma câmera antiga e assistiu às versões não editadas de si mesma, antes de ser filmada para o resto do mundo.
Agora, Momsen diz que está “atenta ao universo”. Quanto mais revisitava seu passado, mais percebia alinhamentos estranhos, como seu reencontro com Jim Carrey. A primeira fita que assistiu espelhou uma faixa de Dear God que ela havia acabado de finalizar, “Spell On You”, que trata a bruxaria tanto como metáfora quanto como método. Ao apertar play, ouviu sua versão mais jovem dizer algo assustadoramente parecido: “I’m a bad witch” (“Eu sou uma bruxa má”). Esse áudio agora está sampleado na música.
Alguns artistas escrevem voltados para o futuro. Momsen escreve de volta para o passado, usando a composição para atravessar todo o arco de sua vida. A música é o que, no fim, une tudo isso.
Nascida em 26 de julho (compartilhando aniversário com Mick Jagger) Momsen gosta de dizer que o rock & roll a trouxe ao mundo. Sua mãe ouviu The Beatles durante o trabalho de parto e, assim que Momsen conseguiu sentar sozinha, seu pai começou sua educação musical.
Eles passavam os domingos juntos no porão, mexendo na enorme coleção de discos da família. Ele colocava David Bowie, Bob Dylan, The Rolling Stones e Pink Floyd, destrinchando as músicas em suas partes constituintes e explicando sua genialidade.
Seu pai, que tocava em bandas e depois trabalhou como assistente de palco do Aerosmith, convenceu ela convictamente de que o rock & roll é a mais alta forma de arte. Hoje, Momsen é uma de suas praticantes mais instintivas. Ela sempre falou fluentemente essa linguagem, nunca precisando aprender formalmente estrutura musical ou teoria. Escreveu sua primeira música antes mesmo de se tornar Cindy Lou Who.
“A música sempre foi como eu entendo a mim mesma e ao mundo; é assim que eu processo a vida”, ela diz. Antes mesmo de completar cinco anos, ela já a usava para processar a morte.
Momsen era uma criança sensível e introspectiva. Amava animais, mas as viagens constantes a impediam de ter um. Ela ficou obcecada por um retrato do cachorro morto de seu pai que ficava pendurado na oficina dele. Isso inspirou sua primeira música, dedicada inteiramente a um animal que ela nunca conheceu. Quando tocou a música para o pai, ele caiu em lágrimas.
“Comecei a escrever músicas aos cinco anos, isso é quem eu sou”, ela diz. “Mas então fiquei conhecida mundialmente por interpretar uma personagem que era muito distante de mim mesma, e isso foi muito difícil.”
Na época em que começou a interpretar Jenny Humphrey em Gossip Girl, essa tensão ficou impossível de ignorar.
“A música é o que eu amo”, ela diz. “Então por que eu estava fazendo aquilo e essa outra coisa? Por que eu estava tentando agradar e manter uma decisão que nunca tomei por mim mesma?”
Como a maioria dos adolescentes, Momsen rejeitou a autoridade imposta sobre ela. Em sua escola católica e tradicional em Maryland, aparecia usando tênis Chuck Taylor e jaqueta de couro enquanto seus colegas vestiam Abercrombie & Fitch. Nas entrevistas, respondia perguntas superficiais e desinteressadas com um olhar afiado e sarcástico. A imprensa tentou transformá-la em um conto de advertência, traçando paralelos preguiçosos com figuras como Lindsay Lohan e projetando a narrativa familiar da ex-estrela mirim em decadência.
Na realidade, era mais simples do que isso. Momsen apenas gostava de rir.
“Acho que ganhei essa má reputação porque acho a mim mesma engraçada pra caralho”, ela diz, “e sarcasmo não funciona muito bem no texto escrito.”
Momsen sempre insistiu que não se interessa pela fama nem pelo que qualquer pessoa além de seus fãs possa dizer sobre ela.
“Tudo o que já disseram sobre mim eu já pensei antes. Estou sempre seis passos à frente.”
Depois de quatro temporadas em Gossip Girl, ela saiu, exatamente como queria. Abandonou os tabloides que acompanhavam tanto seu papel quanto sua vida pessoal e mergulhou ainda mais fundo na The Pretty Reckless.
“Parei de fazer qualquer coisa relacionada à moda e parei de fazer qualquer coisa ligada a celebridades, porque não queria contaminar a arte que estava criando”, ela diz. “Sempre fui extremamente séria sobre o que faço.”
A transição de atriz mirim para musicista de rock não foi fácil.
“Sempre senti que tinha algo a provar, então vivi em uma postura muito defensiva por muito tempo, especialmente em shows e entrevistas”, explica. “Eu sempre dobrava a aposta nas coisas que as pessoas criticavam. Alguém disse que achava minha sombra muito escura, então eu deixei ela ainda mais preta.”
Foi um visual que manteve por mais de uma década.
“Tive uma vida muito estranha até este ponto”, ela diz, minimizando a situação. “Não foi típica. Não foi fácil. O caminho para chegar aqui foi desafiador. E isso não quer dizer que ainda não existam desafios constantemente à minha frente. É só que acho que estou mais preparada para lidar com eles agora do que antigamente.”
Momsen afirma estar no melhor estado emocional de sua vida.
“Finalmente me sinto eu mesma 100% do tempo, e acho que isso se reflete na música que estamos fazendo.”
A partir dessa estabilidade maior, ela está acessando um novo nível de honestidade.
“Havia muitas coisas na vida que eu não queria enfrentar. Agora está tudo na mesa. O álbum inteiro é uma grande confissão.” Para Taylor Momsen, essa palavra é especialmente carregada de significado.
Criada no catolicismo, sua música sempre esteve, em algum nível, em diálogo com o cristianismo: o absolutismo entre céu e inferno de “Going to Hell”, a invocação do pecado e da redenção em “Heaven Knows”, a obsessão por culpa, punição e salvação que percorre Death by Rock and Roll. Essa estrutura deu aos seus primeiros trabalhos uma sensação de grandeza e severidade. Em Dear God, ela retorna a isso com uma postura mais ambivalente.
O título do álbum não poderia ser mais explícito, sua capa a coloca em um uniforme de escola católica, mas Momsen resiste à ideia de interpretá-lo estritamente sob uma lente religiosa. Em vez disso, ela enquadra Dear God em termos mais amplos e pessoais, buscando clareza e conexão em vez de doutrina. Aqui, “Deus” expande-se para além de um único significado.
“A razão de se chamar Dear God é porque é um apelo, é uma oração, mas essa palavra, ‘Deus’, pode significar qualquer coisa. Não é literal. Está lidando com um conceito muito maior. Eu apenas cresci com o cristianismo, então essa é a imagem que associo a isso.”
Quando a The Pretty Reckless entrou em estúdio no começo de 2023, já fazia alguns anos desde o álbum anterior, Death by Rock and Roll. Eles estavam em turnê sem parar havia muito tempo. Momsen chegou com uma enorme quantidade de músicas para serem refinadas.
No estúdio, encontraram um ritmo raro: as melhores sessões da carreira da banda, com cada dia rendendo múltiplos momentos de pura inspiração. Eles queimavam com o mesmo fogo que os levou a formar a banda originalmente. Em certo momento, Momsen ligou para seu agente com uma instrução clara: parar de marcar turnês.
“A não ser...”, brincou ela, “que o AC/DC ou os The Rolling Stones liguem.”
Depois de outra sessão intensa em estúdio, o nome do agente apareceu em seu telefone.
“Por que diabos ele está me ligando? Eu disse: sem mais turnês.”
“Taylor, você não vai acreditar nisso”, ele disse.
“O AC/DC acabou de ligar. Eles querem levar vocês em turnê.”
Ela caiu na risada.
“Eu fiquei tipo: cala a porra da boca, isso não pode ser real.”
Algumas semanas depois, ele ligou novamente.
“Taylor, você também não vai acreditar nisso. Os Rolling Stones também ligaram. Eles querem que vocês abram os shows deles em Vegas.”
O timing pareceu para ela mais um sinal do universo.
“Eu sei que pareço a Phoebe Buffay de Friends”, ela diz, “mas é real.”
Fiel à própria palavra, Momsen aceitou os trabalhos. Voou de Las Vegas para a Alemanha, tocando com duas das bandas mais icônicas da história do rock no espaço de apenas uma semana.
Mesmo assim, sua mente continuava voltando para o novo álbum. O que aconteceria com o impulso criativo? Será que aquela faísca permaneceria?
“Quando as coisas estão indo tão bem no estúdio, você não sabe se vai conseguir recuperar aquilo depois”, ela diz. “Foi uma aposta enorme.”
Mas toda vez que retornavam, o impulso ainda estava lá.
“Acho que isso acabou mantendo tudo muito fresco, porque nunca tivemos tempo para sentar e ficar presos.”
Isso ecoava os primeiros anos da banda, quando Momsen conciliava vários trabalhos enquanto tentava terminar um disco, avançando movida por instinto e necessidade. Não havia nada de artificial no álbum. Ele simplesmente surgiu com uma clareza incomum.
“As músicas são tão cheias de crueza e honestidade”, ela diz. “É como se elas sempre tivessem existido.”
Esse mesmo padrão também está acontecendo em toda a vida de Momsen.
Pouco antes de sua apresentação com o Soundgarden, ela fez algo que resistiu durante anos: regravar “Where Are You Christmas?”, a música que primeiro a apresentou ao mundo. O resultado, o EP "Taylor Momsen's Pretty Reckless Christmas", segundo ela, pareceu “uma reviravolta bizarra dos acontecimentos”.
Os fãs pediam isso desde que ela formou a banda, e ela sempre recusou.
“Era algo que eu nunca, em um milhão de anos, imaginei que faria.”
Foi apenas depois de uma série de perdas, incluindo as mortes de Chris Cornell, do Soundgarden, para quem The Pretty Reckless abriu shows em 2017 naquela que acabaria sendo sua última turnê, e de seu produtor de longa data Kato Khandwala, que sua perspectiva começou a mudar.
“Foi a primeira vez que isso surgiu na minha cabeça como uma possibilidade”, ela diz. “Talvez pudesse ser algo curativo para mim.”
Ela arranjou rapidamente a música e a levou para a banda. Eles tocaram uma vez.
“No final da música, todos estavam com sorrisos enormes no rosto.”
Seu reencontro com Jim Carrey aconteceu nesse mesmo espírito.
“Eu estava meio ansiosa para reencontrar o Jim”, ela diz. “Mas nos reunirmos novamente através do amor mútuo por essa banda foi algo inacreditável. Pareceu voltar para casa.”
O Rock & Roll é a força que trouxe Momsen ao mundo, a estrutura através da qual ela entende a si mesma e o fio que ainda mantém tudo alinhado.
Para ela, não existe destino final.
“Não existe ponto baixo no rock & roll. Você nunca verá ao fim dele.”
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